Foto: André Ávila / Agência RBS
A contratação Miller Bolaños pelo Grêmio começou numa mensagem via WathsApp na metade de 2015. Do avião que levava a seleção do Equador para um jogo das Eliminatórias, o zagueiro Erazo enviou para o diretor-executivo Rui Costa selfie com o meia-atacante:
– Está aqui o reforço de que precisamos para o nosso time.
Erazo nem imaginava que a essa altura seu amigo de seleção já estava no radar gremista. Havia alguns meses o clube o monitorava e investigava sua situação no Emelec. Queria saber a fundo quem era aquele jogador de chute preciso e arrancadas verticais rumo ao gol. Descobriu que se tratava de um jogador talentoso, de temperamento forte e que só mudou o rumo de sua trajetória quando foi guindado a protagonista por Gustavo Quinteros, atual técnico da seleção equatoriana e espécie de tutor do jogador pelo qual o Grêmio pagou R$ 20 milhões.
O temperamento, Miller moldou em casa. Foi quase necessidade numa infância dura. Caçula de seis irmãos, aos quatro anos viu o pai sair de casa. Coube à mãe, Leila Reasco, segurar as pontas e criar seis filhos – além dele, são quatro mulheres e mais Alex, hoje volante do Aucas-EQU. Miller cresceu no precário bairro Eloy Alfaro, próximo de Isla Limones, um paraíso turístico que acabou abandonado pelo poder público e virou bolsão de pobreza.
Leila bem que tentava manter os dois guris sob sua vista. Os joguinhos de futebol eram disputados com bolas improvisadas com meias ao alcance de seus olhos. Seis anos mais novo do que Alex e “flaquito”, Miller encarava a diferença física e chamava a atenção pela agilidade e habilidade com a bola. Tanto que passou a ser chamado para atuar nos times de várzea. Com 11, 12 anos, já corria entre os adultos.
Logo o futebol virou meio de sustento. O normal era pagamento com material esportivo. Mas, às vezes, ele vinha na forma de trocados em dólar. Por telefone, desde o Equador, Leila conta que proibia o caçula de jogar entre os grandes. Temia que quebrassem-lhe a perna. Por isso, cobrava:
– Miller, estava jogando bola por aí?
– Não, mãe, eu não – jurava o guri.
A farsa, porém, era logo desfeita. Bastava caminhar pela vizinhança para ela ouvir os comentários de que o filho havia barbarizado no jogo. Miller escutava a reprimenda, prometia não repetir e comovia a mãe ao entregar o dinheiro ganho nos campinhos.
O mesmo, conta Leila, não fazia Alex:
– Esse comia tudo o que ganhava.
A fama de Miller se espalhou rapidamente pelas províncias de Esmeraldas, onde morava, e na vizinha San Lorenzo. O Caribe Junior andou 300 quilômetros para buscar a promessa de 12 anos. A mãe liberou-o. Até porque o mais velho já estava lá, como volante dos juniores. Leila se despediu do caçula com peso no coração.
Formado no mesmo clube que revelou Antonio e Enner Valencia
O apelo do Caribe Junior foi maior. O clube é famoso no Equador por revelar craques. Saíram da sua base Antonio Valencia, ex-Manchester United e hoje no Wigan-ING, Enner Valencia, do West Ham, e Fidel Martinez, do Pumas-MEX), parceiros de Miller na seleção.
O meia-atacante ficou só três anos no Caribe Junior. Em 2006, o Barcelona, clube mais popular do país, garimpou-o. Foi na calorenta e úmida Guayaquil que Miller viveu o inferno e o ápice do sucesso.
Primeiro, o inferno. Em 2007, aos 17 anos, brilhava no ataque do time principal do Barcelona. E também pelo temperamento explosivo. O talento precoce e a imaturidade mandaram a conta logo. Miller já havia passado uma semana em testes no Basel, da Suíça, e discutia renovação com o Barcelona quando veio o baque. O antidoping em jogo contra o Olmedo, pelo campeonato nacional, havia dado positivo, com traços que denunciavam consumo de cocaína. A Federação Equatoriana suspendeu-o por dois anos – punição revista após a apelação e reduzida para seis meses.
– Foi muito duro, mas estive com ele até o último dia. Na Suíça, fizeram o teste com o cabelo e não apontou nada (da droga) – garante a mãe.
O Barcelona recusou a oferta do Basel, pagou U$ 100 mil e assinou um novo contrato com Miller. Mas a relação se desgastou. Para completar, ele não controlava seu gênio. O clima ficou pesado com desentendimentos no vestiário. Seu staff acreditou que o frio de Quito e a estrutura de campeão de América da LDU o colocariam nos eixos. Na Capital, haveria a companhia do irmão, Alex, que já estava naquele time comandado por Jorge Fossati, e poderia ajudar. Foi um engano. Miller subiu para Quito, mas seguiu impulsivo. Não se adaptou.
Para completar, eram rotineiras as brigas com o irmão nos treinos. A mãe, nervosa, teve crises de hipertensão. A LDU decidiu mandar Alex adiante, em busca de tranquilizar o ambiente. Miller dava resposta em campo. Foi campeão da Sul-Americana em 2009, bi da Recopa, em 2009 e 2010, e protagonista no título nacional de 2010, o último do clube. Só que suas tropelias se repetiam, e a LDU decidiu emprestá-lo para a filial americana do Chivas.
A aventura em Los Angeles durou 18 meses. Só em julho de 2013 é que Miller voltou ao Equador. A LDU havia se enfastiado tanto dele que topou emprestá-lo ao Emelec, rival na parte alta da tabela. Começava aqui a grande virada na vida de Miller. De azul e branco, conquistou o tri nacional. Em 105 jogos, foram 61 gols e 23 assistências, conforme o site Transfermarkt.
Condição de protagonista e afagos da torcida do Emelec
A retomada na carreira veio pela mão firme do técnico Gustavo Quinteros, um ex-zagueiro argentino naturalizado boliviano. Quinteros atacou em duas frentes para colocar Miller nos eixos. Primeiro, usou-o centralizado no meio ou como centroavante. Só que ele vivia à sombra de Enner Valencia, o craque do time. E ser coadjuvante incomodava. Quando Enner saiu, em 2014, o técnico o chamou para uma conversa e avisou-o: seria a estrela, como um meia central.
– Tive de convencê-lo de que poderia jogar nesta função. Tivemos boa relação. Nos últimos três anos, mostrou que é muito importante. Quando está bem, rende ao máximo. Se entrega com muita paixão e quer sempre jogar. Gosta de estar no campo – resume o técnico da seleção equatoriana.
Com Quinteros, Miller descolou o rótulo de bad boy. Passou a aparecer pelos gols e jogadas de classe. O faro de gol rendeu o apelido de Killer (matador). Os atrasos aos treinos cessaram. Paparicado em Guayaquil, parecia sossegado. Quinteros diz ainda que o afago teve como resposta um profissional centrado e decisivo em campo:
– Conheço a Miller como homem e jogador. Não há nenhum problema. É muito profissional e treina com afinco. Mais jovem, teve alguns problemas. Agora, amadureceu. Tenho certeza de que triunfará no Grêmio. Tem muita raça, é quem mais jogou na seleção comigo. Está muito bem pessoalmente.
Quinteros influenciou de forma direta na vinda do meia-atacante para o Grêmio. Os chineses haviam desembarcado em Guayaquil com um caminhão de dinheiro. Miller estava seduzido, e o Emelec já esfregava as mãos quando o técnico mandou o aviso: morar na Ásia poderia fechar a porta na seleção. O Grêmio também ouviu e tirou da gaveta a proposta que havia desenhado na época da selfie com Erazo. Miller a escutou e cobrou do Emelec a promessa de que o liberaria em caso de oferta. Usou seu temperamento forte para convencer o clube. O mesmo que domou para dar a grande virada em sua vida.
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– Está aqui o reforço de que precisamos para o nosso time.
Erazo nem imaginava que a essa altura seu amigo de seleção já estava no radar gremista. Havia alguns meses o clube o monitorava e investigava sua situação no Emelec. Queria saber a fundo quem era aquele jogador de chute preciso e arrancadas verticais rumo ao gol. Descobriu que se tratava de um jogador talentoso, de temperamento forte e que só mudou o rumo de sua trajetória quando foi guindado a protagonista por Gustavo Quinteros, atual técnico da seleção equatoriana e espécie de tutor do jogador pelo qual o Grêmio pagou R$ 20 milhões.
O temperamento, Miller moldou em casa. Foi quase necessidade numa infância dura. Caçula de seis irmãos, aos quatro anos viu o pai sair de casa. Coube à mãe, Leila Reasco, segurar as pontas e criar seis filhos – além dele, são quatro mulheres e mais Alex, hoje volante do Aucas-EQU. Miller cresceu no precário bairro Eloy Alfaro, próximo de Isla Limones, um paraíso turístico que acabou abandonado pelo poder público e virou bolsão de pobreza.
Leila bem que tentava manter os dois guris sob sua vista. Os joguinhos de futebol eram disputados com bolas improvisadas com meias ao alcance de seus olhos. Seis anos mais novo do que Alex e “flaquito”, Miller encarava a diferença física e chamava a atenção pela agilidade e habilidade com a bola. Tanto que passou a ser chamado para atuar nos times de várzea. Com 11, 12 anos, já corria entre os adultos.
Logo o futebol virou meio de sustento. O normal era pagamento com material esportivo. Mas, às vezes, ele vinha na forma de trocados em dólar. Por telefone, desde o Equador, Leila conta que proibia o caçula de jogar entre os grandes. Temia que quebrassem-lhe a perna. Por isso, cobrava:
– Miller, estava jogando bola por aí?
– Não, mãe, eu não – jurava o guri.
A farsa, porém, era logo desfeita. Bastava caminhar pela vizinhança para ela ouvir os comentários de que o filho havia barbarizado no jogo. Miller escutava a reprimenda, prometia não repetir e comovia a mãe ao entregar o dinheiro ganho nos campinhos.
O mesmo, conta Leila, não fazia Alex:
– Esse comia tudo o que ganhava.
A fama de Miller se espalhou rapidamente pelas províncias de Esmeraldas, onde morava, e na vizinha San Lorenzo. O Caribe Junior andou 300 quilômetros para buscar a promessa de 12 anos. A mãe liberou-o. Até porque o mais velho já estava lá, como volante dos juniores. Leila se despediu do caçula com peso no coração.
Formado no mesmo clube que revelou Antonio e Enner Valencia
O apelo do Caribe Junior foi maior. O clube é famoso no Equador por revelar craques. Saíram da sua base Antonio Valencia, ex-Manchester United e hoje no Wigan-ING, Enner Valencia, do West Ham, e Fidel Martinez, do Pumas-MEX), parceiros de Miller na seleção.
O meia-atacante ficou só três anos no Caribe Junior. Em 2006, o Barcelona, clube mais popular do país, garimpou-o. Foi na calorenta e úmida Guayaquil que Miller viveu o inferno e o ápice do sucesso.
Primeiro, o inferno. Em 2007, aos 17 anos, brilhava no ataque do time principal do Barcelona. E também pelo temperamento explosivo. O talento precoce e a imaturidade mandaram a conta logo. Miller já havia passado uma semana em testes no Basel, da Suíça, e discutia renovação com o Barcelona quando veio o baque. O antidoping em jogo contra o Olmedo, pelo campeonato nacional, havia dado positivo, com traços que denunciavam consumo de cocaína. A Federação Equatoriana suspendeu-o por dois anos – punição revista após a apelação e reduzida para seis meses.
– Foi muito duro, mas estive com ele até o último dia. Na Suíça, fizeram o teste com o cabelo e não apontou nada (da droga) – garante a mãe.
O Barcelona recusou a oferta do Basel, pagou U$ 100 mil e assinou um novo contrato com Miller. Mas a relação se desgastou. Para completar, ele não controlava seu gênio. O clima ficou pesado com desentendimentos no vestiário. Seu staff acreditou que o frio de Quito e a estrutura de campeão de América da LDU o colocariam nos eixos. Na Capital, haveria a companhia do irmão, Alex, que já estava naquele time comandado por Jorge Fossati, e poderia ajudar. Foi um engano. Miller subiu para Quito, mas seguiu impulsivo. Não se adaptou.
Para completar, eram rotineiras as brigas com o irmão nos treinos. A mãe, nervosa, teve crises de hipertensão. A LDU decidiu mandar Alex adiante, em busca de tranquilizar o ambiente. Miller dava resposta em campo. Foi campeão da Sul-Americana em 2009, bi da Recopa, em 2009 e 2010, e protagonista no título nacional de 2010, o último do clube. Só que suas tropelias se repetiam, e a LDU decidiu emprestá-lo para a filial americana do Chivas.
A aventura em Los Angeles durou 18 meses. Só em julho de 2013 é que Miller voltou ao Equador. A LDU havia se enfastiado tanto dele que topou emprestá-lo ao Emelec, rival na parte alta da tabela. Começava aqui a grande virada na vida de Miller. De azul e branco, conquistou o tri nacional. Em 105 jogos, foram 61 gols e 23 assistências, conforme o site Transfermarkt.
Condição de protagonista e afagos da torcida do Emelec
A retomada na carreira veio pela mão firme do técnico Gustavo Quinteros, um ex-zagueiro argentino naturalizado boliviano. Quinteros atacou em duas frentes para colocar Miller nos eixos. Primeiro, usou-o centralizado no meio ou como centroavante. Só que ele vivia à sombra de Enner Valencia, o craque do time. E ser coadjuvante incomodava. Quando Enner saiu, em 2014, o técnico o chamou para uma conversa e avisou-o: seria a estrela, como um meia central.
– Tive de convencê-lo de que poderia jogar nesta função. Tivemos boa relação. Nos últimos três anos, mostrou que é muito importante. Quando está bem, rende ao máximo. Se entrega com muita paixão e quer sempre jogar. Gosta de estar no campo – resume o técnico da seleção equatoriana.
Com Quinteros, Miller descolou o rótulo de bad boy. Passou a aparecer pelos gols e jogadas de classe. O faro de gol rendeu o apelido de Killer (matador). Os atrasos aos treinos cessaram. Paparicado em Guayaquil, parecia sossegado. Quinteros diz ainda que o afago teve como resposta um profissional centrado e decisivo em campo:
– Conheço a Miller como homem e jogador. Não há nenhum problema. É muito profissional e treina com afinco. Mais jovem, teve alguns problemas. Agora, amadureceu. Tenho certeza de que triunfará no Grêmio. Tem muita raça, é quem mais jogou na seleção comigo. Está muito bem pessoalmente.
Quinteros influenciou de forma direta na vinda do meia-atacante para o Grêmio. Os chineses haviam desembarcado em Guayaquil com um caminhão de dinheiro. Miller estava seduzido, e o Emelec já esfregava as mãos quando o técnico mandou o aviso: morar na Ásia poderia fechar a porta na seleção. O Grêmio também ouviu e tirou da gaveta a proposta que havia desenhado na época da selfie com Erazo. Miller a escutou e cobrou do Emelec a promessa de que o liberaria em caso de oferta. Usou seu temperamento forte para convencer o clube. O mesmo que domou para dar a grande virada em sua vida.
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