Ajoelhado no gramado do Atanasio Girardot, com os olhos cerrados, Danrlei viu suas lágrimas se misturarem ao filme que costuma acometer os campeões com todas as cenas das batalhas superadas pelo Grêmio até o bicampeonato da Libertadores, em 1995. Confortado pelo diretor de futebol César Pacheco, o goleiro de 21 anos e seu temperamento hiperbólico representavam fielmente a emoção que tomou conta de todos os gremistas naquele 30 de agosto. Lembranças de agruras, sofrimento e, claro, de glórias, que hoje se confundem a uma festa que iniciou ainda no campo do rival, com direito a ovação respeitosa da torcida adversária, seguiu em um memorável - e alcoólico - voo fretado até Porto Alegre. E que se eternizou nas ruas da capital gaúcha, pintadas de azul preto e branco para receber os donos da América. Num 31 de agosto como o desta segunda-feira, mas há 20 anos.
Pouco mais de 12 quilômetros separam o Aeroporto Salgado Filho do Estádio Olímpico. Trajeto facilmente vencido em pouco mais de 20 minutos. Mas que custou aos gremistas sete horas de euforia vividas sobre o caminhão do Corpo de Bombeiros ao lado de uma multidão de torcedores fiéis, com escalas na Prefeitura e no Palácio Piratini para cumprimentos oficiais pela conquista. Nem parecia que haviam vivido o embate final, com sofrido e suado empate em 1 a 1 com o Nacional-COL na noite anterior.
> Os momentos marcantes do retorno dos heróis encerram a série especial do GloboEsporte.com em homenagem aos 20 anos do bi da Libertadores do Grêmio:
VOO FRETADO (E ALCOÓLICO)
Aeronave que mais parecia uma boate reservada aos campeões da América, dado o barulho, as danças e ao "trago" de jogadores, dirigentes e comissão técnica. A euforia dos vencedores contagiava comissários de bordo e repórteres que retornavam ao Brasil no mesmo voo. Os confrontos superados implicavam muitas comemorações.
E só não bebemos a gasolina do avião porque não dava, ele caía
Jardel
Talvez por isso a aeronave tenha enfrentado dificuldades para decolar no aeroporto em solo colombiano e rumar de volta para casa. Acostumado a lidar com as "escapadas" dos atletas em meio à campanha, o vice de futebol Luiz Carlos Martins, o Cacalo, se entregara ao triunfo: estava tudo liberado. O resultado veio em forma de aviso de uma das aeromoças, após 30 minutos de voo: o estoque de bebidas alcoólicas se esvaíra.
- Você queria o quê? Só não bebemos a gasolina do avião porque não dava, ele caía - recorda o frasista Jardel.
A festa do título era capaz até mesmo de demover o meia Carlos Miguel de seu medo de voar. Fora contagiado pela animação dos companheiros, a ponto de celebrar sem preocupação alguma, antes de cair no sono, após café da manhã na escala em Manaus.
FIEL ESCUDEIRO
A pausa em solo amazônico serviu de combustível para renovar as energias até a festa em Porto Alegre, inaugurada pelo presidente Fábio Koff. Com a taça da América nas mãos, o mandatário foi o primeiro a desembarcar da aeronave - como já havia feito na primeira conquista, em 1983 - direto na pista do Aeroporto Salgado FIlho. Pista que mais parecia a arquibancada do velho Estádio Olímpico, tomada de uma multidão de ao menos três mil gremistas.
Dali, o caminho natural indicava o caminhão de bombeiros, meio de transporte que se tornara usual ao Grêmio nos anos 90. O irreverente Paulo Nunes chegou a sugerir ao vice de futebol Luiz Carlos Martins, o Cacalo, que o clube comprasse um dos veículos para o clube, em vez de pedi-lo emprestado ao Corpo de Bombeiros.
Um ágil adolescente, perto de 16 anos, se encarregava de abastecer todos os campeões no caminhão do início ao fim do trajeto da festa
Do aeroporto, o caminhão rumou ao Palácio Piratini, sede do Governo do Rio Grande do Sul, para a saudação oficial do então governador - e gremista - Antônio Britto. O veículo avançava imponente em meio ao mar de gremistas que tomou as ruas, sempre com Danrlei à frente, quase caindo da escada. À medida que se percorria os cordões das calçadas, pintadas de azul, preto e branco, muitos torcedores acenavam das marquises. Tantos outros tratavam de acompanhar lado a lado o trajeto. Um em especial.
Tão esguio quanto o pequenino Paulo Nunes dentro de campo, um ágil e obstinado adolescente, em torno dos 16 anos, se encarregava de encontrar brechas na multidão para abastecer os campeões sobre o caminhão. Os municiava, é claro, com cervejas, para dar sequência à festa iniciada no avião.
- A gente dava dinheiro para ele, e ele saía no meio da multidão para comprar para a gente. Foi do aeroporto ao Olímpico fazendo isso. Quando chegamos ao Olímpico, demos camisa, demos um monte de coisa por ele ter feito essa mão para a gente - recorda Carlos Miguel.
CONFUSÃO E ROUBO A JARDEL
Após vencer as avenidas Farrapos, Mauá e Erico Verissimo, o imponente caminhão dos campeões fez efervescer os gremistas ao despontar na avenida Azenha. Explosão de festa que os acompanhou até o Estádio Olímpico. Ali, o que era alegria se transformou em confusão.
Roubaram meu relógio, aí fui lá e reclamei com segurança, o Pedrão, que encontrou o cara e recuperou Jardel
Em êxtase, os jogadores subiram em um palco improvisado na pista atlética e logo começaram a conclamar os torcedores para que participassem das comemorações. Logo, muitos fãs irromperam das arquibancadas, saltaram o fosso, e se lançaram sobre os campeões, a fim de retirar uma recordação que seja da conquista. Jardel que o diga.
- Eu me lembro. Roubaram meu relógio, aí fui lá e reclamei com o segurança, o Pedrão, que encontrou o cara e recuperou para mim - se diverte o centroavante.
A confusão foi contida com a intervenção da Brigada Militar, mas não sem sequelas. O show de pagode e o discurso do presidente Fábio Koff acabaram cancelados para evitar maiores transtornos.
ROUPÃO VALIOSO
Com as festividades no gramado encerradas, os gremistas rumaram aos vestiários para limpar a conquista do corpo e, enfim, iniciar o merecido descanso após a maratona de comemorações, já no final da tarde. Não sem antes uma última peripécia, proporcionada por Alexandre Gaúcho.
A arrancada fulminante até o pênalti assinalado já aos 37 do segundo tempo por Salvatore Imperatore, em Medellín, não esgotou o gás do atacante. Elétrico, Xoxó, como é apelidado pelos colegas, conclamou Paulo Nunes a ir à marquise do Olímpico. Dali, arremessavam o restante dos materiais da equipe aos torcedores que ainda resistiam
esperançosos por uma lembrança no pátio do estádio. A diversão só foi interrompida pelos gritos de um atônito "tio" Sílvio, um dos massagistas do elenco.
- Peguei e joguei o roupão para a torcida lá embaixo. Depois, ele veio conversar comigo: "Pô, Xoxó, tu jogou meu roupão lá embaixo?". "Joguei, meu velho, nós somos campeões da América". Aí, ele respondeu: "Pô, meu salário estava todo ali dentro" - se diverte. - Se era verdade, eu não sei, mas que depois eu dei dinheiro para ele, eu dei. O que eu podia, eu jogava lá para baixo. Acho que fui um dos últimos a sair do Olímpico aquele dia.
O desesperado tio Sílvio teve sua preocupação sanada pelo ídolo. Assim como os gremistas, que viram o sofrimento das 14 batalhas enfrentadas na Libertadores encerrado com o grito de festa. O grito de bicampeão da América.

Chegada teve histeria em 31 de agosto de 1995 (Foto: Reprodução/RBS TV)
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Pouco mais de 12 quilômetros separam o Aeroporto Salgado Filho do Estádio Olímpico. Trajeto facilmente vencido em pouco mais de 20 minutos. Mas que custou aos gremistas sete horas de euforia vividas sobre o caminhão do Corpo de Bombeiros ao lado de uma multidão de torcedores fiéis, com escalas na Prefeitura e no Palácio Piratini para cumprimentos oficiais pela conquista. Nem parecia que haviam vivido o embate final, com sofrido e suado empate em 1 a 1 com o Nacional-COL na noite anterior.
> Os momentos marcantes do retorno dos heróis encerram a série especial do GloboEsporte.com em homenagem aos 20 anos do bi da Libertadores do Grêmio:
VOO FRETADO (E ALCOÓLICO)
Aeronave que mais parecia uma boate reservada aos campeões da América, dado o barulho, as danças e ao "trago" de jogadores, dirigentes e comissão técnica. A euforia dos vencedores contagiava comissários de bordo e repórteres que retornavam ao Brasil no mesmo voo. Os confrontos superados implicavam muitas comemorações.
E só não bebemos a gasolina do avião porque não dava, ele caía
Jardel
Talvez por isso a aeronave tenha enfrentado dificuldades para decolar no aeroporto em solo colombiano e rumar de volta para casa. Acostumado a lidar com as "escapadas" dos atletas em meio à campanha, o vice de futebol Luiz Carlos Martins, o Cacalo, se entregara ao triunfo: estava tudo liberado. O resultado veio em forma de aviso de uma das aeromoças, após 30 minutos de voo: o estoque de bebidas alcoólicas se esvaíra.
- Você queria o quê? Só não bebemos a gasolina do avião porque não dava, ele caía - recorda o frasista Jardel.
A festa do título era capaz até mesmo de demover o meia Carlos Miguel de seu medo de voar. Fora contagiado pela animação dos companheiros, a ponto de celebrar sem preocupação alguma, antes de cair no sono, após café da manhã na escala em Manaus.
FIEL ESCUDEIRO
A pausa em solo amazônico serviu de combustível para renovar as energias até a festa em Porto Alegre, inaugurada pelo presidente Fábio Koff. Com a taça da América nas mãos, o mandatário foi o primeiro a desembarcar da aeronave - como já havia feito na primeira conquista, em 1983 - direto na pista do Aeroporto Salgado FIlho. Pista que mais parecia a arquibancada do velho Estádio Olímpico, tomada de uma multidão de ao menos três mil gremistas.
Dali, o caminho natural indicava o caminhão de bombeiros, meio de transporte que se tornara usual ao Grêmio nos anos 90. O irreverente Paulo Nunes chegou a sugerir ao vice de futebol Luiz Carlos Martins, o Cacalo, que o clube comprasse um dos veículos para o clube, em vez de pedi-lo emprestado ao Corpo de Bombeiros.
Um ágil adolescente, perto de 16 anos, se encarregava de abastecer todos os campeões no caminhão do início ao fim do trajeto da festa
Do aeroporto, o caminhão rumou ao Palácio Piratini, sede do Governo do Rio Grande do Sul, para a saudação oficial do então governador - e gremista - Antônio Britto. O veículo avançava imponente em meio ao mar de gremistas que tomou as ruas, sempre com Danrlei à frente, quase caindo da escada. À medida que se percorria os cordões das calçadas, pintadas de azul, preto e branco, muitos torcedores acenavam das marquises. Tantos outros tratavam de acompanhar lado a lado o trajeto. Um em especial.
Tão esguio quanto o pequenino Paulo Nunes dentro de campo, um ágil e obstinado adolescente, em torno dos 16 anos, se encarregava de encontrar brechas na multidão para abastecer os campeões sobre o caminhão. Os municiava, é claro, com cervejas, para dar sequência à festa iniciada no avião.
- A gente dava dinheiro para ele, e ele saía no meio da multidão para comprar para a gente. Foi do aeroporto ao Olímpico fazendo isso. Quando chegamos ao Olímpico, demos camisa, demos um monte de coisa por ele ter feito essa mão para a gente - recorda Carlos Miguel.
CONFUSÃO E ROUBO A JARDEL
Após vencer as avenidas Farrapos, Mauá e Erico Verissimo, o imponente caminhão dos campeões fez efervescer os gremistas ao despontar na avenida Azenha. Explosão de festa que os acompanhou até o Estádio Olímpico. Ali, o que era alegria se transformou em confusão.
Roubaram meu relógio, aí fui lá e reclamei com segurança, o Pedrão, que encontrou o cara e recuperou Jardel
Em êxtase, os jogadores subiram em um palco improvisado na pista atlética e logo começaram a conclamar os torcedores para que participassem das comemorações. Logo, muitos fãs irromperam das arquibancadas, saltaram o fosso, e se lançaram sobre os campeões, a fim de retirar uma recordação que seja da conquista. Jardel que o diga.
- Eu me lembro. Roubaram meu relógio, aí fui lá e reclamei com o segurança, o Pedrão, que encontrou o cara e recuperou para mim - se diverte o centroavante.
A confusão foi contida com a intervenção da Brigada Militar, mas não sem sequelas. O show de pagode e o discurso do presidente Fábio Koff acabaram cancelados para evitar maiores transtornos.
ROUPÃO VALIOSO
Com as festividades no gramado encerradas, os gremistas rumaram aos vestiários para limpar a conquista do corpo e, enfim, iniciar o merecido descanso após a maratona de comemorações, já no final da tarde. Não sem antes uma última peripécia, proporcionada por Alexandre Gaúcho.
A arrancada fulminante até o pênalti assinalado já aos 37 do segundo tempo por Salvatore Imperatore, em Medellín, não esgotou o gás do atacante. Elétrico, Xoxó, como é apelidado pelos colegas, conclamou Paulo Nunes a ir à marquise do Olímpico. Dali, arremessavam o restante dos materiais da equipe aos torcedores que ainda resistiam
esperançosos por uma lembrança no pátio do estádio. A diversão só foi interrompida pelos gritos de um atônito "tio" Sílvio, um dos massagistas do elenco.
- Peguei e joguei o roupão para a torcida lá embaixo. Depois, ele veio conversar comigo: "Pô, Xoxó, tu jogou meu roupão lá embaixo?". "Joguei, meu velho, nós somos campeões da América". Aí, ele respondeu: "Pô, meu salário estava todo ali dentro" - se diverte. - Se era verdade, eu não sei, mas que depois eu dei dinheiro para ele, eu dei. O que eu podia, eu jogava lá para baixo. Acho que fui um dos últimos a sair do Olímpico aquele dia.
O desesperado tio Sílvio teve sua preocupação sanada pelo ídolo. Assim como os gremistas, que viram o sofrimento das 14 batalhas enfrentadas na Libertadores encerrado com o grito de festa. O grito de bicampeão da América.

Chegada teve histeria em 31 de agosto de 1995 (Foto: Reprodução/RBS TV)
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