— Vai lá e, quando chegar na van, só diz isso para o tio Ruth: cinco muito! Ele vai entender.
Eu é que não tinha entendido direito qual era a piada nisso. Sabia que tinha alguma referência a futebol. Ao Gre-Nal do domingo anterior. Sabia que o tio Ruth era gremista. Tinha certeza de que o meu pai, quem tinha me dado essa curiosa instrução ao sairmos de casa, era colorado. Mas não via sentido na frase. Parecia errada, torta, estranha. "Ele vai entender", o pai insistiu. "Tá certo, vou falar", concluí, bom filho que era.
— E aí, tio! Cinco muito! — disse eu.
Meio rápido demais. Meio sem graça demais. Sem o tempo correto da piada enquanto entrava atrapalhado na Kombi escolar.
— Não entendi... — respondeu o tio Ruth, motorista da Kombi, frustrando a primeira flauta que eu fiz na vida.
Era início da tarde. Segunda-feira. 25 de agosto de 1997. Christian, Sandoval, Fabiano, Fabiano, e Marcelo. 5x2 para o Inter no Gre-Nal do Olímpico. Eu tinha seis anos e, ali, tinha decidido que vestiria vermelho nessa vida.
Minutos antes de me acompanhar até a porta da van que me levaria para a creche, meu pai estava deitado, rindo sozinho, assistindo ao Jornal do Almoço. Na TV, um grupo de colorados queimava uma bandeira do Grêmio nas arquibancadas do Olímpico. Eles estavam tão felizes. Eles riam tanto. Eles cantavam tão alto.
— Deve ser divertido esse negócio de ser colorado — pensei comigo.
Colorado virei. Ali, num Jornal do Almoço de segunda-feira.
Décadas antes, meu pai — que em 1997 me ensinava a tirar sarro dos derrotados — tinha vivido o seu momento de optar pelo rubro. A situação era inversa, e a história é bonita: o Inter havia sido derrotado pelo Grêmio. 3x1 no Beira-Rio em 1971. Em casa, o pai — então com 7 anos — viu toda a família fazer piada e provocar o seu avô. Velhinho, derrotado, em minoria, ele se recolheu num canto da cozinha e por ali ficou. Sentadinho, calado. Meu pai se apiedou da situação.
— Vô, eu tô contigo nessa.
Virou colorado. Ali, em um café da tarde pós-jogo.
Domingo a História desfilou pela primeira vez no gramado da Arena. Há mais de século nada assim ocorria. Daqui a 10, 15 anos vamos procurar vídeos do que aconteceu. Rever os gols. Ouvir os áudios. Ler os textos. E, quem sabe, pequenos coloradinhos e gremistinhas vão poder olhar para trás e dizer: tchê, foi naquele jogo que eu escolhi a cor que eu iria vestir. Ali, em algum lugar entre o chutaço do Giuliano e o carrinho do Réver.
— Cinco muito! — ele vai entender.
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